terça-feira, 24 de maio de 2011


o nosso amor suicidou-se ontem de madrugada
enquanto tu dormias e eu olhava
o mar
à varanda.
contudo, move-se por dentro de mim.
mas enquanto morrer não passa de uma formalidade
sulcamos com a ponta dos dedos
o sono eterno
ainda que o mundo pulse
como uma fenda latejante.

e se o poema nos trespassar os olhos
e corroer directamente a alma?
os ciprestes negros abrigam-nos
na lentidão de um corpo branco.
aproxima-se, lento, como um sepulcro
onde nos vestimos de Isis.


depois desaparece no súbito de um momento
morto.
contudo, ela move-se por dentro de mim.

domingo, 22 de maio de 2011

it got hard for my heart to stay

espero com o gato ao lado dos dedos que chegues a casa
espero com a tempestade no coração sufocado
que o teu corpo atravesse a porta.
espero-te com a tinta azul nas mãos e palavras indissociáveis de ti na boca.

aguardo a tua chegada-regresso constante no multiplicar das letras
e
deixo que o relógio dite o teu atraso.

não. não te direi mais sobre as rotações que infliges no meu pescoço de modo a que os violinos rasguem a pele num sufoco, num sufoco constante que empalidece com os teus olhos, meu amor. sabes tão bem que as reticências em paris não têm lugar.

sábado, 21 de maio de 2011

o gato branco


Feixes de luz embatem na tua pele e refractam sombras brancas emergentes da tua cegueira inquietante. Colecciono-as no meu veludo preto...ouço-o respirar no meu ventre cortado pela sombra de final de tarde. À noite todos os gatos são brancos.

domingo, 15 de maio de 2011

podemos jantar

Por detrás da porta, passos lentos irrompem no pulsar dos meus dedos. O ritmo cadenciado vicia a minha mente agitada pelo silêncio continuado de dias...talvez horas ou talvez minutos não sei. O cheiro a relva molhada queima o meu olfacto destreinado, esquecido naquele dia apagado dos meus dias de ausências. Ouço-te colocar a chave na porta. O meu desejo carnal descodifica o bater do coração. As palavras esquivam-se. Fundimo-nos em movimentos asfixiante de prazer estagnado pela ausência.
A mesa está posta...podemos jantar.

the bird

resumir universos a palavras

ver os passos a deslizar pelo corpo.
são dedos, são mentiras,
é a astronomia sintética do voo.

tempestades de medo nos sorrisos
planos e _____.
dá-me uma palavra porque só peço duas.

toco num deserto sem nome,
na substância lunar dos poros.
abandono-me pelo esquecimento
e regrido ao início hipócrita das estrelas:
espaço-tempo onde te vejo.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

a bússola


Eram os mesmos dias e as mesmas noites. O tecto misturava-se com um chão usado e gasto pelo tempo, tempo esse que não passou, tempo que não tive, tempo que não era meu. Era apenas tempo...somente aconteceu. Já caíram todas as folhas. O vento acordava o meu corpo inerte e rígido que o tempo não deixou que se desfizesse. O meu rosto emudeceu no último inverno. Possuíu as últimas palavras enclausuradas da minha inexpressão. Secou cada poro do meu olhar. Acorda-me quando chegares...

pano cortado

domingo, 8 de maio de 2011

o animal



Como sempre chegaste à hora marcada com o teu fato de cetim preto. O teu perfume envenenava o ar putrefacto por onde passavas. Os pássaros corriam à tua volta agitando-se, atropelando-se, competindo pelo melhor lugar no teu poleiro miserável e corrupto. Cada gesto teu era exacto, soltavas palavras minuciosas e observavas, sempre com o teu olhar semi-cerrado, qual o som que o seu eco soletrava. Em teu redor, o que era vivo congelou. Acorrentados pelas vísceras, esperam um resto teu que os alimente por mais uns dias, matam-se por obtê-lo, envenenam o mais vil verme.
Como sempre partiste à hora marcada com o teu fato de cetim preto. Piso o sangue seco salpicado na terra batida, observo os vermes destroncados deixados pelo caminho. Imbecis! Amanhã chegarás à hora marcada com o teu fato de cetim preto

ela adormeceu na minha cama

parede encarnada

O bailarino do mar

movimento perdido



O fumo de luz incide sobre os teus dedos que batem cronicamente na mesa de madeira. Arrasto-me para o canto oposto da sala. O compasso dos teus dedos persegue-me - está enclausurado no meu sangue, pressiona o meu crânio a cada segundo. Basta! Não quero mais silêncio!
Preciso...
Preciso...corro em tua direcção. Os teus dedos corroem cada passo que dou, arrancam o chão selvaticamente que se desnuda na minha frente.
Preciso...meu amor preciso de ti.

sábado, 7 de maio de 2011

9.2.11

rasgo a pele com as
pontas dos dedos. isto
sou eu: um feixe apagado
de nuvens que se instalam nos teus poros.
as mãos agarram o contorno
e ficamos debruçados entre o passar
moroso do frio
pelo sangue,
sobre os passeios sujos, voltamos
a casa. a porta que não se abre.

cai o carmo e a trindade

segunda-feira, 2 de maio de 2011

here now


Debruço-me novamente sobre os alicerces dobrados. As flores nasceram na terra árida. Sinto o quente metálico queimar o ar estagnado. Os músculos adormecidos esticam cada fáscia do seu corpo - uma a uma, ainda dormentes, retomam a sua posição de outrora. O meu corpo invertebrado ganha forma, estrutura, um esqueleto capaz de suportar a mais árdua tarefa. Falta-me sentir, pensar, imaginar, sorrir. Lembro-me do meu sorriso... Sinapses rolam atropelando-se no meu cérebro parado pelo tempo. Pensei que tivesse morrido. Onde estava eu? Quem era eu? Lá fora tudo aconteceu, dias se passaram, semanas, meses, anos até. Onde estava eu? Perdi-me naquele comboio, o verde lá fora era resplandecente. Ainda me lembro das cores. Mas perdi-me, e o meu tempo acabou, parou naquele dia no meio de tantos outros. Debruço-me novamente sobre os alicerces dobrados e já me vejo na tua íris cor de mel.