quinta-feira, 21 de junho de 2012

Fragmentum I


o meu pensamento é uma febre louca virada para o interior; sepultada por uma máscara apropriada ao movimento social que vai rodando, volvendo em meu redor numa dança circular, cíclica, demasiadamente fútil.
é, no entanto, nestes rituais gregários que se desenvolvem os sentidos da vida que vêm a substituir os sentidos do ser.

domingo, 9 de outubro de 2011

...


Acorda-me quando a noite passar.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

domingo, 25 de setembro de 2011

The Man Who Drowns


um projecto musical meu, que uso principalmente para experiências sonoras.

Sol Invictus (série Suceur)

sábado, 2 de julho de 2011

simple things

Anseios, medos, inquietudes, buscas incessantes de coisa nenhuma, procura de tudo e chegada de nada, alomorfismos desmedidos separados pelo tempo, vincados num espaço de uma única dimensão.
Estaremos a enlouquecer?
Preciso do simples,
do branco e do preto,
do bolo de chocolate com gelado,
dos teus dedos entrelaçados nos meus.
Preciso somente...do teu sorriso.

convergência; dispersão

uma estranha convergência de seres
no mesmo espaço
ao mesmo tempo
me fez aperceber:
não sei onde pára a minha existência.

corpos dançantes desenham
círculos no chão,
são anéis que separam
o que uns são
e outros não.

somos todos a mesma massa
disforme
que atravessa séculos
na procura a princípio condenada
de saciar a elevada fome.

os passos volvem
e juntam-se bocas fulvas
e mentes prodigiosas
que no ermo da vida
encerram a questão última.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

auto-tédio

sou um casulo de pensamentos quiméricos. assisto ao meu próprio desmoronamento no momento da eclosão dos demónios que se fixaram em mim. tremo, resoluto à perdição e entrançado a um destino do qual não me sei volver, e contorço-me, preso a este corpo de carnes várias, de perfis monstruosos, de espelhos rasgados.

domingo, 19 de junho de 2011

inquietude

Não suportava mais frases inacabadas nem palavras perdidas numa distância imensurável. Quebrava a minha frágil lucidez a cada noite caída para te poder sentir aproximar, a entrar dentro de mim como se fossemos um só. Juntaste as cores na parede da nossa casa e sorriste. Não preciso de mais...

segunda-feira, 13 de junho de 2011

pele diferente de epiderme

Quantas vezes olhamos para nós próprios e não nos reconhecemos na nossa própria pele? Será a nossa pele, o nosso ser? Ou será a nossa pele apenas a nossa epiderme? A pele é muito mais que um conjunto de células unidas de forma bem organizada e proporcional, é muito mais do que simples epiderme. A epiderme protege-nos, cobre cada fibra da nossa carne, não deixando que se danifique. É o nosso escudo e está em constante renovação. Já a nossa pele é bem complexa, pode ou não proteger-nos, pode ou não crescer, regenerar, pode ou não estar presente, pode ou não ser visível. Cada um de nós depara-se com inúmeras “peles” ao longo da sua vida e esperamos sempre que, pelo menos uma delas, seja a adequada para o nosso corpo, se identifique plenamente connosco e se encaixe na perfeição com a nossa epiderme. Só assim nos tornamos seres únicos naquele momento da nossa existência, sendo esse momento mais ou menos extenso, mais ou menos duradouro, mais ou menos estável, mais ou menos nosso.
não percebo o meu coração
ou porque o deixo aproximar-se tão incessantemente de ti.

o tempo é cada vez mais frágil
dentro do meu corpo.
ganho consciência de ti. só te quero a ti.
dei-te o nome do céu, todas as lembranças doridas de te desejar
tanto que me afasto de ti.
sou sempre eu a ir ao teu encontro,
sou sempre eu na solidão dos espaços mortos entre beijos.

reestruturo o poema dos teus olhos
toco-te nos ombros,
abandono o luar sempre que adormeço nas estrelas.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

faltam palavras

Espero que as palavras voltem...partiram em silêncio para outra rua.
Procuram janelas que estas paredes demoliram.
Dissipam-se no fumo do cigarro que ainda arde onde o deixaste.
Guarda-as quando as encontrares.

terça-feira, 24 de maio de 2011


o nosso amor suicidou-se ontem de madrugada
enquanto tu dormias e eu olhava
o mar
à varanda.
contudo, move-se por dentro de mim.
mas enquanto morrer não passa de uma formalidade
sulcamos com a ponta dos dedos
o sono eterno
ainda que o mundo pulse
como uma fenda latejante.

e se o poema nos trespassar os olhos
e corroer directamente a alma?
os ciprestes negros abrigam-nos
na lentidão de um corpo branco.
aproxima-se, lento, como um sepulcro
onde nos vestimos de Isis.


depois desaparece no súbito de um momento
morto.
contudo, ela move-se por dentro de mim.

domingo, 22 de maio de 2011

it got hard for my heart to stay

espero com o gato ao lado dos dedos que chegues a casa
espero com a tempestade no coração sufocado
que o teu corpo atravesse a porta.
espero-te com a tinta azul nas mãos e palavras indissociáveis de ti na boca.

aguardo a tua chegada-regresso constante no multiplicar das letras
e
deixo que o relógio dite o teu atraso.

não. não te direi mais sobre as rotações que infliges no meu pescoço de modo a que os violinos rasguem a pele num sufoco, num sufoco constante que empalidece com os teus olhos, meu amor. sabes tão bem que as reticências em paris não têm lugar.

sábado, 21 de maio de 2011

o gato branco


Feixes de luz embatem na tua pele e refractam sombras brancas emergentes da tua cegueira inquietante. Colecciono-as no meu veludo preto...ouço-o respirar no meu ventre cortado pela sombra de final de tarde. À noite todos os gatos são brancos.

domingo, 15 de maio de 2011

podemos jantar

Por detrás da porta, passos lentos irrompem no pulsar dos meus dedos. O ritmo cadenciado vicia a minha mente agitada pelo silêncio continuado de dias...talvez horas ou talvez minutos não sei. O cheiro a relva molhada queima o meu olfacto destreinado, esquecido naquele dia apagado dos meus dias de ausências. Ouço-te colocar a chave na porta. O meu desejo carnal descodifica o bater do coração. As palavras esquivam-se. Fundimo-nos em movimentos asfixiante de prazer estagnado pela ausência.
A mesa está posta...podemos jantar.

the bird

resumir universos a palavras

ver os passos a deslizar pelo corpo.
são dedos, são mentiras,
é a astronomia sintética do voo.

tempestades de medo nos sorrisos
planos e _____.
dá-me uma palavra porque só peço duas.

toco num deserto sem nome,
na substância lunar dos poros.
abandono-me pelo esquecimento
e regrido ao início hipócrita das estrelas:
espaço-tempo onde te vejo.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

a bússola


Eram os mesmos dias e as mesmas noites. O tecto misturava-se com um chão usado e gasto pelo tempo, tempo esse que não passou, tempo que não tive, tempo que não era meu. Era apenas tempo...somente aconteceu. Já caíram todas as folhas. O vento acordava o meu corpo inerte e rígido que o tempo não deixou que se desfizesse. O meu rosto emudeceu no último inverno. Possuíu as últimas palavras enclausuradas da minha inexpressão. Secou cada poro do meu olhar. Acorda-me quando chegares...

pano cortado

domingo, 8 de maio de 2011

o animal



Como sempre chegaste à hora marcada com o teu fato de cetim preto. O teu perfume envenenava o ar putrefacto por onde passavas. Os pássaros corriam à tua volta agitando-se, atropelando-se, competindo pelo melhor lugar no teu poleiro miserável e corrupto. Cada gesto teu era exacto, soltavas palavras minuciosas e observavas, sempre com o teu olhar semi-cerrado, qual o som que o seu eco soletrava. Em teu redor, o que era vivo congelou. Acorrentados pelas vísceras, esperam um resto teu que os alimente por mais uns dias, matam-se por obtê-lo, envenenam o mais vil verme.
Como sempre partiste à hora marcada com o teu fato de cetim preto. Piso o sangue seco salpicado na terra batida, observo os vermes destroncados deixados pelo caminho. Imbecis! Amanhã chegarás à hora marcada com o teu fato de cetim preto

ela adormeceu na minha cama

parede encarnada

O bailarino do mar

movimento perdido



O fumo de luz incide sobre os teus dedos que batem cronicamente na mesa de madeira. Arrasto-me para o canto oposto da sala. O compasso dos teus dedos persegue-me - está enclausurado no meu sangue, pressiona o meu crânio a cada segundo. Basta! Não quero mais silêncio!
Preciso...
Preciso...corro em tua direcção. Os teus dedos corroem cada passo que dou, arrancam o chão selvaticamente que se desnuda na minha frente.
Preciso...meu amor preciso de ti.

sábado, 7 de maio de 2011

9.2.11

rasgo a pele com as
pontas dos dedos. isto
sou eu: um feixe apagado
de nuvens que se instalam nos teus poros.
as mãos agarram o contorno
e ficamos debruçados entre o passar
moroso do frio
pelo sangue,
sobre os passeios sujos, voltamos
a casa. a porta que não se abre.

cai o carmo e a trindade

segunda-feira, 2 de maio de 2011

here now


Debruço-me novamente sobre os alicerces dobrados. As flores nasceram na terra árida. Sinto o quente metálico queimar o ar estagnado. Os músculos adormecidos esticam cada fáscia do seu corpo - uma a uma, ainda dormentes, retomam a sua posição de outrora. O meu corpo invertebrado ganha forma, estrutura, um esqueleto capaz de suportar a mais árdua tarefa. Falta-me sentir, pensar, imaginar, sorrir. Lembro-me do meu sorriso... Sinapses rolam atropelando-se no meu cérebro parado pelo tempo. Pensei que tivesse morrido. Onde estava eu? Quem era eu? Lá fora tudo aconteceu, dias se passaram, semanas, meses, anos até. Onde estava eu? Perdi-me naquele comboio, o verde lá fora era resplandecente. Ainda me lembro das cores. Mas perdi-me, e o meu tempo acabou, parou naquele dia no meio de tantos outros. Debruço-me novamente sobre os alicerces dobrados e já me vejo na tua íris cor de mel.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

lugar comum


Pelos corredores vazios vagueiam corpos perdidos, vazios de sentido, alheios ao espaço e ao tempo que já foi, esquecidos de todos. Caminham sem parar, embatem violentamente em cada obstáculo que encontram mas seguem a luz negra que reflecte cada um dos seus passos. Cheira a cadáver...a morte parou no caminho e sentenciou mais um corpo. Fraco e debilitado acabou por ficar caído naquele soalho frio. Não sei quem seria, apenas trazia a roupa num corpo gasto pelo tempo, cansado de tanto parar. Os restantes continuam o caminho - uns ainda à espera que um dia possam pisar descalços a relva húmida acabada de cortar, outros já conformados com o fechar vagaroso das cortinas da sala de jantar. Já sinto a dormência chegar.

terça-feira, 26 de abril de 2011

26.04.11


teço momentos sobre olhares ímpios
disparados de lados opostos da sala.
fantasio às vezes na possibilidade do impossível
no regresso do príncipe diamantino
que seduz entre fumaças e sorrisos de réptil.
vem a mim, vem a mim!
não sabes quanto te quero, quanto imagino
um palco só para nós dançarmos e cantarmos
como se não houvesse tempo para nos matar.
não sabes quanto imagino noites de seda,
bordados escarlate sobre a cama desnuda
e complacente de corpos entrelaçados.

7.2.08

olhos lilás e desenhos a lápis no caderno de história. pergunto-me se alguém quer saber da nossa história, da minha história, da tua história, da estória deles: a nossa é muito mais relevante porque nós a queremos esquecer.
as conchas salpicadas por aquele sabor salgado (que só sentimos lá para o meio da nossa língua) com inúmeras memórias sorridentes de búzios, sereias e peixes-palhaço; o mundo também é às riscas alaranjadas, brancas e pretas, sabes? talvez porque somos tão humanos ... ou então porque toda a costa portuguesa é banhada pelo oceano A T L Â N T I C O - eu gostava de ser mais como o ártico: frio frio frio, e perto dos pinguins: também não sei voar.
eu gostava mesmo era de ter o teu sorriso; é tão adorável, já reparaste? capaz de calar o mal que me fazes, mas também, quem é que quer saber? as mágoas não têm sabor que as papilas gustativas possam sentir, e a seguir à pesca, o que realmente importa em portugal é ... a culinária.

sábado, 23 de abril de 2011

ecce homo


Num gesto inexplicável, tocaste a minha mão. Pela primeira vez, os teus dedos entrelaçaram-se nos meus como se tivessem nascido assim, fundidos na totalidade do seu corpo. Sentia o meu coração bater apressadamente, sem caminho previsto. O ar tinha-se esgotado, secava a minha voz, cortava selvaticamente cada palavra que tentava dizer. Admirava os teus dedos com o meu olhar, não ousava tocá-los - eram demasiado perfeitos, demasiado suaves e fortes, simplesmente perfeitos. Abraçavas-me e possuias-me sem o saber. Num gesto inexplicável selámos a nossa pele como se fosse uma só. Ecce homo...és tu.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

queimei os meus navios




cada segundo de um rascunho acústico escrito na primeira pessoa aliado à minha atracção sexual pela caneta. as mãos arderam de desejo. toco-me sobre a tua fotografia num expressionismo neo-gráfico, uma espécie de poesia visual num complexo geográfico.
continuo narrativamente encantadora enquanto poema. perpetuo-me em cada mentira, eu sou o reflexo do espelho de diamantes que te arrefece o corpo de noite.
o eminente recomeço hipócrita, tal cadáver desdito de propagação.


16/10/2008

quinta-feira, 21 de abril de 2011

tornei-me um habitáculo


tornei-me um habitáculo de coisas que amam
sem saberem ser amadas e das paixões que não podem existir
mas também não querem morrer.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

feira popular


Pela rua deparo-me com espelhos alinhados. Por onde caminho lá estão eles projectando o que todos vemos, mostrando o que todos sabemos. Mais à frente, mais um fantoche com mais um espelho pronto a projectar as mesmas luzes usadas pelo tempo. E no final todos aplaudem, o fantoche ganha vida, cresce e agradece e passeia-se pelo caminho de cabras, levando todo o seu rebanho atrás. Aproveitando a caminhada do seu rebanho, o fantoche volta atrás, vasculha sofregamente por entre espelhos mais antigos, procura, chafurdando no que consegue, um que pudesse surpreender, um que a memória alheia não lembrasse...talvez umas luzes? talvez uns enfeites? talvez virá-lo ao contrário? sim, o fantoche leva-o todo o caminho e planta-o ao contrário. A plateia está ao rubro!

segunda-feira, 18 de abril de 2011

asas cortadas


Por entre as folhas soltas do teu livro passeio os meus anseios, inquietudes, medos de algo que ainda não chegou. Já não os consigo ver, mas sinto-os e eles aproximam-se a passos largos, deixando um rasto de alguma coisa por onde passam. O vento tornou-se quente, desértico e sem direcção. A incerteza persegue-me a cada passo gélido da tua voz, consome o meu desejo ininterrupto pelo teu ser, vagueia pelo meu corpo inquieto. A angústia consome a minha mente, em espirais de imagens que já não sei se são ou foram reais. Respiro abruptamente...pequenos segundos de asfixia percorrem o meu peito que chora pelo teu. Enlouqueço...não sei se és, não sei se foste.

domingo, 17 de abril de 2011

aprende a estar calada


é sempre a tua boca a abrir-se para falar e eu a tentar imaginar o movimento da tua língua antes de a mexeres. cresce uma repulsa inexplicável por ti na minha cabeça enquanto o meu peito me puxa para o teu corpo, arranca palavras de mim à força & o silêncio dorme na horizontal. penso em agarrar os dias pela garganta e sufocá-los, fazendo-os morrer nos nossos braços sem que passem.
sempre eu a tentar sentir o bater do teu coração só por te ver as veias do pescoço e sempre aquele ritmo lento a acelerar a minha respiração descontente. nasce um vício pelo toque ocasional da tua pele
a embriaguez dos sentidos faz-me desejar-te de uma forma quase animal.

malmequeres caídos



O relógio parou quando tu saíste. Ainda sinto os teus dedos lânguidos e suaves a percorrerem o meu corpo. Os teus passos permanecem pela casa vazia...ainda os ouço por entre o teu sorriso. Sinto a água cair sobre o meu corpo dorido pela ausência do teu...cada gota queima a minha pele como se a destruísse, pedaço por pedaço. Os meus olhos não fecham, procuram por ti a cada canto, quero ver-te quando chegares. Eles continuam como tu os deixaste, vão morrendo pouco a pouco, adormecem mais um pouco a cada dia que passa, a cada hora sem ti, a cada minuto da tua ausência. Não deixes cair a noite.

eco

Vestígios de vozes passeiam-se pela sala. Dissipam-se ao longo do caminho, perdem-se no interior das paredes frias. Embatem violentamente nos corpos que ali vagueiam, esbofeteiam os rostos enrugados que por ali se cruzam. Ensurdecem as mentes trancadas de tudo pelo tempo passado. E no final são tão pouco, quase nada...por fim morrem, cansados, caem aos pés do abismo mais longínquo.

condores perdidos


as óperas são mentiras, todas elas desde
o capuz ao tecto do teatro
onde pulsam os nossos corações abertos.

não te vou atender o telefone.
isto parece um teatro de gansos!
ainda para mais amadores.

os dedos não param sobre a luz, calor,
jarros chineses,
quinquilharias.

temos fome, a noite fornece
o apetecido petisco,
longas entranhas de homem-cão.
tróia cai.

final do primeiro acto.


continua a fome? deve ser da femme fatal
que passa desapercebida
por debaixo dos cortinados
cai gentilmente o véu sobre a pele
sujeita ao gelo arriscado dos riscos da vida
podre e apodrecida,
caroço humano em pele de madeira lascada
por anos e anos de vénus.

putrefactos deuses em maioria
distinta
coberta de açúcar e chocolate
belo chocolat.

isto é merda, merda merda merda merda merda,
as vozes cor-de-rosa cor-de-escurecem
e esquecimentos caem como moscas sobre finas sedas
colchão divino, azulejo, crocodilo destro.

não pode continuar, não pode.
estou a escutar o céu morto acima de mim.

o bailarino do mar, ilustração 1


LES NOCES | Aterballetto


sábado, 16 de abril de 2011

fantasmas do chiado


volto ao sítio onde deixei o teu corpo e a metamorfose acontece. os teus átomos são pedaços de Lisboa, esta cidade que nos enche a cabeça de ideias que não são nossas e fantasmas que nos tocam a vista. são imigrantes do além e santos caídos do altar.

um pão servirá de certeza, um cigarro na boca por favor.

uma mosca pousa na face de um errante da sobrevida lisboeta enquanto as luzes enegrecem os olhos apagados. 

trevo de quatro folhas


Ainda o guardo no meio daquele livro perdido na nossa sala. Intacto como no dia em que tu mo deste. Perfeito como a pele das tuas mãos que tremiam quando mo entregaste. Solitário como a beleza que emergia por debaixo do teu rosto. Ainda o guardo... Resta-me pouco de mim mas ainda o guardo como se do último pedaço do meu corpo se tratasse, como se do último pedaço do teu corpo se tratasse. E quatro estações passaram mas ainda o guardo.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

transmissão hermes 1


sou fatalista. acredito que todos nascemos para morrer
para viver e para nos repetirmos dentro daquilo a que chamamos
revoluções arte.

sou anarca. acredito piamente em nunca acreditar em
seja o que for. a razão é o aforismo da existência. então e o amor?
é um pássaro dissecado
esquecido sobre a mesa de operações.

há demasiados poemas a divagar por folhas que voam sobre ruas e avenidas
e portões abertos.
quero abraçar-te.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

branco

Mistura de tudo e conjunto de nada...
Sorrisos...apenas sorrisos.

domingo, 10 de abril de 2011

memórias

Invadem a nossa mente sem pedir permissão. Assaltam-nos de dia e de noite, quando queremos às vezes ou quando menos esperamos quase sempre. Consomem cada pedaço do nosso ser, levando-nos para lugares distantes, tempos passados ou vidas perdidas, acorrentado-nos lá...naqueles lugares, naqueles tempos, naquelas vidas. Fazem parte de nós ao mesmo tempo que fazem parte dos outros. São insubstituíveis, inigualáveis até... Fortes, cravam na nossa pele impressões inapagáveis. Fracas, deixam vestígios de algo na nossa mente. Presentes ou ausentes, brancas ou negras, são memórias.

sábado, 9 de abril de 2011

restos

Por entre a porta entreaberta consigo ver um fio de luz. Afinal é dia lá fora...afinal houve dias lá fora. O corpo dói-se. Cada músculo contrai-se a cada movimento, a cada respirar, a cada silêncio ininterrupto. Sinto o ar quente e pesado na face. Em volta permanecem restos de ideias, restos de optimismo, restos de vida que já foi de alguém, restos de vida que já o foi. Afinal houve dias lá fora. Aqui...apenas restos.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

reticências

Pontos soltos percorrem a tua pele na busca de certezas. Não a sinto mas procuro-a incessantemente em cada canto daquela sala tão vazia de tudo e tão cheia de nada. Não a sinto...vou tacteando o ar, ainda quente da tua presença, mas não a sinto. Aos poucos torna-se mais frio, gélido até. Restam-me os pontos soltos. A tua pele morreu.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

mãos

Mãos que desenham, mãos que pintam, mãos que apagam e corrigem. Crescem, envelhecem e, mesmo assim, continuam nossas, sempre nossas mas de mais alguém... Desenvolvem-se, descobrem traços, linhas onde a nossa cabeça nunca chegaria, descobrem caminhos para além dos traços, caminhos esses onde os nossos olhos nunca chegariam. Aprendem...sim aprendem a tocar e a sentir o que tocam. Respiram por elas próprias mas não vivem sozinhas. Solitárias por vezes mas nunca sozinhas mesmo que o tempo as gaste, as envelheça, as marque, as atinja até sangrarem. E elas sangram...o seu sangue corta os dedos, cada um deles, um a um lentamente. E mesmo assim feridas, conseguem encantar, tocam o intocável, transformam a matéria mais rarefeita em algo de precioso. E continuam nossas, sempre nossas mas de mais alguém.

domingo, 3 de abril de 2011

espelho perdido

No fundo negro do teu olhar vejo vestígios de mim...restos de corpo, pedaços de alma.

domingo, 27 de março de 2011

hoje é ausência

Sala vazia...apenas uma mesa a um canto abandonada. O cheiro a vazio invade os ossos do nosso corpo ausente. Pelo chão, restos de algo que ali passou e ficou. Hoje é ausência...

sábado, 26 de março de 2011

procura-se

Procura-se artista com pele...

impressões

No fundo do olhar escondem-se traços que se revelam em cru, nus de contornos, vazios de conteúdo e ao mesmo tempo cheios, repletos e intensos. A mente perde e encontra, abre-se e fecha-se; sinapses de ideias fluem como se de um rio se tratasse, e convergem para algum lugar, indefinido ainda, mas algum lugar será.
"nowhere/here now" local de encontros e partidas sem hora marcada sem local definido. Arte de trabalho e de suor, arte de atitude, arte de dentro e de fora, arte de marcos e que marca.

poeira

ausência ou presença...
a mesma face...
o mesmo lado...